Publicado por: enquantoescrevo em: 02/03/2011
Como havia comentado no post anterior, irei dedicar alguns dias desta semana para abordar a violência contra a mulher. Dividirei com vocês uma matéria que produzi lá em 2009, quando ainda cursava jornalismo na Pucrs. O tempo passou, eu sei, mas, infelizmente, o assunto não envelheceu.
*********
Muito além das cartas
Luciana caminha sob o sol forte do meio-dia de uma quarta-feira, no bairro Cohab B, em Gravataí. Com passos largos e rápidos, deposita cartas quase que automaticamente em caixas de correspondências. Falante, a carteira resiste bravamente perder o resto do fôlego que lhe resta enquanto conta histórias sobre mordidas de cachorro, família e endereços.
Os quatro anos de profissão garantiram à Luciana da Rosa de Souza inúmeras histórias. “As pessoas consideram a gente como alguém de casa, sabe? Já teve quem me atendeu só de calcinha”, conta a carteira, acostumada com atitudes que denotam a confiança dos clientes.
Entre lingeries expostas, convites para almoço, abrigo para chuva e copo d’água, Luciana também é convidada a conhecer parte de uma realidade covarde, mas ainda comum nos lares: a violência doméstica. A sensibilidade feminina permite que ela e outras duas colegas do Centro de Distribuição Domiciliar (CDD) de Gravataí percebam a existência de uma vítima de agressão. Por essa habilidade que Luciana leva no peito, além do crachá dos Correios, um boton lilás destaca sua segunda função: Promotora Postal de Cidadania (PPC).
O trabalho, que é pioneiro no Brasil, foi criado a partir de uma situação vivenciada por uma carteira, que ligou chocada para o RH da instituição após ter presenciado uma agressão durante uma das entregas. A carteira foi orientada a fornecer um número de telefone (180) que orienta vítimas de violência. Depois de algum tempo, ao reencontrar a carteira, a vítima agradeceu a ajuda, dizendo ser de grande valia.
Baseada no resultado, a Coordenadoria de Clima Organizacional dos Correios junto a instituições que atuam na área, resolveram criar um grupo que pudesse auxiliar mulheres vítimas de agressão familiar. O projeto iniciou em 2007, mas o curso de formação de promotoras postais teve a primeira turma em novembro de 2008 quando professores, delegados e representantes de órgãos defesa à mulher realizaram palestras com o apoio de vídeos, filmes e documentários.
A coordenadora de clima organizacional e assessora de relações sindicais dos Correios, Francisca Santos da Silva, esclarece que as promotoras postais não se envolvem com o problema, apenas informam, dão apoio, encaminham e amparam as mulheres.
O projeto das promotoras postais, hoje existente em Porto Alegre e na Região Metropolitana, pretende se expandir ao interior do Rio Grande do Sul. Correspondências já foram enviadas às regiões operacionais para que indiquem carteiras destinadas à função.
Para carregar no peito o boton de Promotora Postal, a carteira deve fazer uma pré-seleção. Nela, é analisado o perfil da profissional. A medida é tomada para impedir, por exemplo, que uma profissional vítima de agressão participe e se envolva demasiadamente na ocorrência.
Não é o caso de Luciana, que desde dezembro de 2008 assumiu a função. Ela reconhece, no entanto, que é inevitável que haja um envolvimento. A acessibilidade do contato feito com as vítimas é facilitada pela informalidade.
É por motivos semelhantes que a carteira e estudante de Letras, Josiane Assis de Azevedo, de 25 anos, acredita que o trabalho de orientação torna-se mais viável. Ela diz que a informalidade da abordagem facilita a prevenção à violência: “Existem muitas ONG’s e associações que atuam na área de agressão doméstica, mesmo assim, não são todas as mulheres que procuram. Nós já estamos mais próximas da mulher, entregamos quase diariamente correspondência a elas. Existe uma confiança maior. Entramos onde a polícia não entra”. E é justamente através de conversas que as histórias de humilhações e sofrimento chegam às promotoras postais. “Elas falam muito! Contam toda a vida para a gente”, dizem as carteiras.
A importância do trabalho se destaca ainda mais quando o contato é feito com mulheres de baixa renda. “Muitas pessoas não têm conhecimento de seus direitos. A gente passa na rua e vê muita coisa. Você bate para entregar a correspondência e escuta gritos, é filho sendo espancado, a mulher sendo agredida…nossa…é muita coisa. Ficamos em estado de choque. Antes não sabíamos o que fazer e nem a gente tinha esse conhecimento”, diz Josiane.
*****
Amanhã, a matéria vai mostrar alguns motivos que fomentam tanta reincidência nos casos de violência doméstica.