O estágio e a bicicleta

bicicleta1Encerro nesta semana uma função que ocupei durante quatro anos – por vezes, ingrata, complexa, sofrida, mal remunerada, mas mesmo assim importante e gratificante: a de estagiária.

Durante este tempo todo, aprendi, errei e poucas vezes fui elogiada pelos meus acertos. No entanto, valeu a pena. Recebi a confiança de alguns chefes em ocupar funções que exigiam a responsabilidade de um profissional. Chorei por não aceitar errar e senti orgulho de mim mesma por conseguir espaço que profissionais formados não haviam conquistado.

Conheci ministros, fotografei o presidente da República, publiquei matérias, fiz boletim de trânsito e dos aeroportos, entrei em rede nacional pelas ondas do rádio. Ouvi a insatisfação dos camelôs do Centro de Porto Alegre em ocupar um novo espaço e acompanhei a luta de um grupo de moradores de um bairro contra a construção de um prédio.

Talvez não tenha sido nada de mais, porém acredito que tive sorte. Conheci jornalistas que haviam se formado há mais de um ano e ainda não sabiam como era a rotina de uma redação.

O que mais gostaria de ressaltar aqui é que muitos jornais, rádios, televisões, sites de notícia e assessorias de imprensa são feitos, na sua maioria, por mãos estagiárias. Por pessoas que se comprometem, que ganham pouco e, apesar de tudo, ainda são subestimadas. Não falo apenas por mim, mas por todos colegas que também passaram por situações semelhantes ou piores – sim, porque pode piorar, meu amigo.

Alguns dos colegas estagiários que tive se mostraram mais competentes que os seus superiores. Atrasaram as cadeiras da faculdade para poder atender `as demandas do serviço, trabalharam no Ano Novo, no Natal e nos feriados, dormiam cerca de quatro horas por dia, pois se dividiam em dois ou três estágios. Gente que eu admiro e que deveriam ser mais valorizados e, principalmente, respeitados.
****
Deixar de ser estagiário é como não precisar mais andar de bicicleta com rodinhas. No estágio, você ainda pode vacilar – desde que isso não se torne uma constante – você possui uma cota generosa de desculpa, você ainda tem as rodinhas para impedir o seu tombo.

Agora, colega, quando tiram as rodinhas da sua bicicleta… cair será quase um crime. Está entendendo onde eu quero chegar? O deslize não é aceito por um profissional. Sabe aquele jornalista que, sem ter intenção errou, e você, um estudante crítico e inteligente, desmoralizou o coitado? Pois é, amanhã você é quem estará ocupando o lugar dele e sem poder escorregar. Tiraram as rodinhas da sua bicicleta, amigo.

Daqui em diante, espero não usar muito Band-Aid ou ataduras em minhas quedas. Mas nas que sofri até agora, sempre tive alguém para me ajudar a levantar a bicicleta, limpar o meu joelho da areia e dizer: “Vai de novo! Te equilibra e vai!”. Agradeço imensamente aos meus chefes e aos meus colegas que muito me ensinaram.

Encerrei uma fase para iniciar outra. Agora, a próxima vaga que irei ocupar será como uma profissional. Dá medo, mas sei que sou capaz e de que estou pronta. Já coloquei o capacete e a joelheira. Pode empurrar a bicicleta porque lá vooouuu eeeeeu!!!

Anúncios

2 comentários sobre “O estágio e a bicicleta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s