Resíduos necessários

Hoje, acordei com um poema na cabeça: “Resíduo”, de Carlos Drummont de Andrade. Ele me faz refletir sobre o momento em que vivemos, onde tudo parece tão volátil, tão instantâneo quanto um pacote de miojo. Quando você viu, já passou, se foi. Um vídeo, uma notícia, um escândalo, um político corrupto, o lixeiro ou a sua vez na fila do banco. “Opa! Passou alguém na minha frente!”. É… a fila anda, filho. Não acompanhar o ritmo frenético pode deixar você desatualizado em questão de segundos. Mas não importa, a ordem é seguir, não importa aonde.

Será que ainda é possível contar com algum resíduo na vida? Algo que, se não tiver a sorte de se perpetuar no tempo, pelo menos tenha uma durabilidade maior? O que fica? O que resta? É com esta pergunta filosófica que deixo aqui um pequeno trecho do poema Resíduo:

“De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ―  de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
(…)

fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato”.

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3 comentários sobre “Resíduos necessários

  1. Bah, tu acorda com Resíduos e eu acordo com Inaraí na cabeça….hihihhihihihi
    Sou chinelo mesmo! É que toda a ver que vejo o bus Icaraí lembro dessa música. 😀 Adorei o texto!

  2. Na verdade, acho que a gente acaba sendo sempre conscequência desses tais resíduos. O que fica dos outros na gene e o que fica da gente mesmo quando enfrentamos problemas e coisas felizes…

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