O negro no futebol da vida

Já era fim de tarde, mas o sol ainda estava forte em um dos parques de Porto Alegre. No campo de areia, três garotos, que não deveriam ter mais de 10 anos, improvisavam uma partida de futebol.

Logo após a minha chegada, um menino, que aparentava ter quatro, cinco anos, pediu para entrar no time. Os três mosqueteiros se entreolharam e evitaram vacilar com um “não” em frente à mãe do menino negro que pedia a inclusão no grupo.

Nem tão discretamente, o trio se desfez, deixando o aparente líder do grupo sozinho diante do menino. Pênalti: o garoto negro e o, agora, xerife solitário, que se via sob a responsabilidade de aceitar o novato ou não. Optou por negar a participação, mesmo que isso lhe custasse driblar amigos imaginários.

O referido garoto excluído, mal se deu conta de que fora rejeitado. Acredito que não tenha compreendido o que aquilo significava, pois, tão logo saiu dali,  fora brincar em outro lugar, onde as crianças estavam tão distraídas que, arrisco a dizer, mal notaram a sua cor.

 Em seguida os desertados voltaram ao campo, e com eles, mais dois garotos brancos que foram aceitos no grupo sem restrições.

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 Não muito diferente é a situação do negro na sociedade. As pessoas evitam dizer um “não”, mas ele é muito mais presente do que imagina para aquele que tem a pele mais escura do que a maioria que o cerca.

Algumas pessoas insistem em dizer que as oportunidades são as mesmas para brancos e negros. Eu discordo: não são iguais. Existem brancos pobres? Sim, vários. Mas se você é negro e pobre, as chances de se dar bem são mais escassas. Certamente, você terá que trabalhar mais que o seu colega branco ou estar mais arrumado do que ele para que alguém perceba o seu empenho. Desculpa,mas é assim mesmo que funciona.

Pensei nisso, enquanto assistia o nosso amigo, inocentemente, querendo entrar naquele time tão exigente. São crianças, ok. Não sei até que ponto eles tiveram consciência do ato, mas é a partir desta fase que formamos nossa postura diante daqueles com quem iremos conviver na escola, no trabalho, no supermercado ou no condomínio.

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O menino excluído continuou a brincadeira em um grupo diferente, porém, mais heterogêneo. Ali, sequer havia um líder, quiçá, um cartão vermelho exibido por um juiz que não aceitava o jogador pela cor da pele.

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