A arte da terapia entre escovas, esmaltes e depilação

Enquanto a recepcionista falava ao telefone com a gerente da pequena sala sobre a entrevista, chegava no local uma mulher com a aparente expressão de cansaço. Estava 15 minutos atrasada. Além do ar abafado e úmido daquele fim de manhã, estava irritada porque teve que aguardar o encanador arrumar um vazamento na pia da cozinha, o que provocou o atraso.

A manicure já trazia nas mãos alicate, lixa e o protótipo de aquarela: uma pequena toalha branca manchada com as mais variadas cores de esmalte. Pediu que a cliente se sentasse e perguntou se a receita da borra de café não havia resolvido o problema da pia entupida. Ao desligar o telefone, a recepcionista interferiu na conversa, afirmando que borra não funcionava e que bom mesmo era o Diabo Verde, “já havia dito isso a ela”, reclamou a consultora de encanamentos.

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É neste ambiente dos salões de beleza, entre esmaltes, chapinhas e depilação, que a atividade empírica da terapia se manifesta. O cabelo escovado, a unha francesinha ou a sobrancelha bem feita não são os únicos atrativos, mas a boa e velha conversa. Casamento, trabalho, filhos, saúde e sexo são os assuntos que disputam espaço com o som ininterrupto dos secadores de cabelo e do telefone que impera no ambiente.

Talvez sejam por estes motivos que poucos homens freqüentam os salões de beleza. A passagem é rápida e eficiente, sem muitos gastos ou conversa. Muitas vezes, o corte de cabelo é feito durante a leitura concentrada de um jornal ou revista, sem abertura para muito papo.

Por isso que a cabeleireira Maristela Munhoz da Costa, de 35 anos, prefere trabalhar com mulheres, afinal, elas gastam mais. Apesar disso, a profissional, que trabalha há 14 anos na área da beleza, acredita que deveria ter um retorno financeiro maior: “Além de ser cabeleireira, sou terapeuta!”. Tela, como é chamada pelas colegas de trabalho, diz que é intimada a dar conselhos (na maioria das vezes sobre relacionamentos amorosos), mas não se sente a vontade para isso.

O salão de beleza, localizado na Cidade Baixa, em Porto Alegre, é reconhecido, inclusive, como o protótipo de uma clínica de reabilitação. Isso ficou visível para Tela, quando o marido de uma cliente praticamente despachou a esposa na sala: “Ele disse que não agüentava mais a mulher em casa. Estava certo de que ela precisava ficar ali um pouco”, conta a cabeleireira rindo.

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Cena do filme "Caramelo"

Algumas pesquisas atestam que a mulher fala cerca de 20 mil palavras por dia, enquanto os homens se contentam com sete mil. Aliando estes dados com o número de mulheres que passam pelo salão onde Maristela trabalha, o número torna-se assustador para qualquer homem: aproximadamente 4 milhões de palavras circulam, por semana, no espaço de 72m2 (descontando as palavras ditas fora dalí). 

A fama dos salões de beleza de serem antros de fofoca, condiciona o comportamento discreto de Adriana Mattos Teresa, de 28 anos. A alcunha é mais dirigida às manicures, por isso, Adri não fala muito se a cliente não der uma entrada. “Não somos fofoqueiras. Muitas vezes, nem falamos. São as clientes que fazem questão de contar a vida”, argumenta a manicure, que também é depiladora. Ela diz que acaba, de forma indireta, participando do nascimento ou morte de um relacionamento amoroso.

Em um sábado lotado, no intervalo de uma lixada nas unhas e um cafezinho, a discussão sobre a fidelidade toma conta em um canto do salão. “Se o meu faz, eu não sei. Acho que todos fazem. Mas o que eu vou fazer? Trocar seis por meia dúzia?”, fala a mulher com a mão suspensa, aguardando a unha secar após a pintura. As demais balançam a cabeça em sinal afirmativo, demonstrando uma resignação não muito convincente.

Para Carla Ferreira, de 27 anos, o motivo para tanta conversa é a carência. Ela trabalha há 10 anos em um instituto de beleza localizado em outro ponto da Cidade Baixa. A manicure, que também faz depilação, ilustra sua teoria com uma cliente que faz pé e mão três vezes por semana. As mulheres que costumam pintar as unhas sabem que uma semana ou 15 dias seria o suficiente. “Agora ela está diminuindo. Vem só na segunda e sexta-feira”. Carla acredita que a tal cliente, casada e mãe de dois filhos, não tem com quem dividir suas angústias ou alegrias, por isso, freqüenta tanto o local.

A também manicure, Sandra Pedroso, de 33 anos, diz que quanto maior a proximidade da tarefa, maior a intimidade da conversa. Entre uma escovada no cabelo e uma depilação há muita diferença. Mas sente que parece não haver, por parte do cliente, uma barreira entre o profissional e o “terapeuta”. “Para algumas, não somos profissionais pagas para executar uma tarefa específica, mas sim, para ouvir problemas. Tem um dia que eu não estou bem, como qualquer pessoa, mas elas não aceitam”. Além de tudo, existe o ciúme. Se uma cliente, que aguarda a sua vez de ser atendida, percebe que a “sua” manicure está conversando demais com a, digamos, rival, já reclama. “Elas chegam aqui e querem logo conversar”, diz Carla.

Reconhecido espaço de reabilitação para alguns ou local ideal para desabafos para outros, os salões de beleza fazem parte de um setor que movimenta cifras satisfatórias, inclusive, durante as crises econômicas. Saber o que movimenta isso, vaidade ou carência, vai precisar de mais uma discussão, talvez, em algum instituto por ai.

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