Um passeio Kafkaniano em Porto Alegre

Ônibus Jardim Ipê. Escolhi o lado direito do veículo para me sentar, pois ainda havia sombra. Com a cabeça encostada na janela, passei pelo Túnel da Conceição e lembrei do quanto eu gostava destes lugares quando eu era pequena.

Uma senhora ocupa o lugar vazio a minha esquerda. “Licença”. Pois, não”. Volto a olhar para a rua. E eis que ela aparece, sorrateiramente. Pequena, discreta e com as anteninhas agitadas. Ficou me olhando, creio eu. “Não, sua atrevida, nem tente qualquer tipo de diálogo”, pensei, “Está longe de ser Gregor Samsa. Lembre-se, você está dentro do ônibus Jardim Ipê!”.

Droga! O que eu faria? Olhei para a senhora que dividia o assento comigo, buscando compartilhar aquele sentimento de repulsa e asco, mas nada. E a barata continuava ali. Olhei para a mulher novamente e nenhuma resposta ao meu apelo silencioso. Tive vontade de alertá-la que a indiferença dela só contribuía para o meu desespero. Ela não se importava com baratas? Que tipo de mulher era ela?

Precisava dar um jeito de eliminar aquele ser nojento da janela… Mas como? Não poderia tirar o meu AllStar dos pés e batê-lo contra a janela. Imagina a cena!

Chega! Preciso tomar uma atitude madura, que qualquer mulher tomaria em meu lugar. Com um movimento brusco pedi licença à mulher infiel, que não cedeu aos meus olhares de súplica, e sentei-me lá atrás, no fundo do ônibus, sabe? Onde os assentos se dispunham mais altos que os demais e onde eu assistia de camarote o olhar solitário e angustiante da mulher para a barata.

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