Um bairro que se preze

Passando por alguns bairros de Porto Alegre, aqueles que ainda resistem às loucas alterações da engenharia de trânsito e da arquitetura que desconfigura a história de uma região, senti saudades de viver em um legítimo bairro.

Todo bairro que se preze tem alguma casa com uma placa “vende-se sacolé”. Tem algum adolescente gritando da rua o nome de seu colega para jogar uma pelada.

Todo bairro que se preze tem um grupo de vizinhos que tomam chimarrão na calçada ao fim da tarde. Um bar que anota na caderneta as compras dos mais chegados.

Todo bairro que se preze cheira à grama molhada quando chove. Tem formiga, tem tatu-bolinha e tem lesma. Todo bairro que se preze tem esconde-esconde, tem praça e tem gente pulando corda.

Em todo o bairro que se preze, há alguém que cai de bicicleta, que quebra um braço ou que leva um puxão de cabelo. Há alguém que dá o primeiro beijo, faz piquenique e assiste filme de terror com os vizinhos.

Todo bairro que se preze tem um formigueiro, margaridas e frutas no pátio do vizinho. Tem barulho de panela de pressão, tem cheiro de bolo saindo do forno e alguém ouvindo a Rádio Farroupilha.

***
Não sei que ônibus eu pego para chegar neste bairro que um dia morei. Não está no Google, nem nos mapas amassados. Me perdi ou ele se perdeu de mim. Aliás, hoje quase não existem bairros, mas mini-cidades.

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