Relato íntimo de um paladar insaciável

Dizem que cozinhar é uma arte. Também. No entanto, prefiro apostar no protagonismo daqueles que a apreciam. Pouco adianta ter diante de si um banquete requintado, se não compreendermos – e sentirmos – o efeito que cada tempero nos causa.

Reconhecer os sabores significa entender nosso próprio corpo e compreender como ele reage aos estímulos dos desejos do paladar. Comer é um ato que extrapola a simples reposição de alimentos, o acúmulo de calorias ou a satisfação da gula. É o exercício de nutrir o prazer e satisfazer a alma através de uma fusão sensual de cheiros, texturas e gostos.

***

Vigoroso e oponente se exibe no prato. A boca saliva. A mente procura na memória o sabor do aroma que, sorrateiramente, invade as narinas.

O garfo transporta a comida. A ponta da língua serpenteia na boca, tentando identificar o doce. Nas laterais, o amargo. No centro, o salgado. Os códigos paladares não se encaixam, causando um agradável transtorno, uma mistura de dúvida, mistério e prazer.

O corpo, já dormente, não se interessa em saber o que é. O maior desejo é poder repetir a mesma sensação a cada garfada.

O vinho tinto adesiva a acidez na língua e catalisa os sabores. Os olhos ficam pesados, reverenciam respeitosamente o sentido que não pode proporcionar.

Aos poucos, a realidade toma forma, os ruídos dos talheres retornam e o corpo sai preguiçosamente do estado de gozo. No prato, restos de comida: lençóis desarrumados. Fim da refeição.

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2 comentários sobre “Relato íntimo de um paladar insaciável

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