Resgate de um personagem

Revirar a história. Cutucar a memória. Não esquecer os erros cometidos para não cometê-los novamente.

Matéria publicada no Jornal do Comércio, no caderno especial da 56° feira do Livro
Texto: Priscila Pasko
Foto: Gustavo Diehl

Os livros costumam trazer rasgados em suas páginas histórias de guerras, traições e conflitos. Mas a vida real também serve de cenário para enredos dignos de uma ficção. A diferença é que os livros não ficam escondidos. Histórias verídicas podem. O ex-patrono da Feira do Livro Alcy Cheuiche conta em sua mais recente obra, João Cândido: o almirante negro, a vida do líder da Revolta da Chibata, que no próximo dia 22 de novembro completará 100 anos. O livro, escrito como romance, resgata a história do movimento que exigiu fim aos castigos sofridos por marinheiros e a origem de seu líder.

JC Feira do Livro – Sobre o seu livro João Cândido: o almirante negro: é um tipo de história que o senhor gostaria de não ter escrito?

Alcy Cheuiche – Sim, porque, como dizia Bertold Brecht, “infeliz dos povos que necessitam de mártir”. É bom não ter mártir, eles surgem quando existem as injustiças, e as pessoas comuns podem se tornar heróis. Se não houvesse castigos físicos da Marinha, se 22 anos depois da Lei Áurea se cumprisse a lei que proibiu o castigo aos negros, não teria acontecido este fato. João Cândido não teria entrado desta forma para a história do Brasil.

JC – Feira do Livro – A partir de quando o senhor começou a pensar no livro?

Cheuiche – Comecei a guardar os documentos há dez anos, quando se comemorava os 90 anos da Revolta da Chibata. Até porque alguns leitores também me cobravam, pois já havia dedicado parte de obra para os índios. Vi que era o momento de eu pensar nos negros brasileiros.

JC – Feira do Livro – O que mais o surpreendeu durante a pesquisa sobre João Cândido?

Cheuiche – Fiquei surpreso que, mesmo a Revolta da Chibata tendo ocorrido há quase um século e ela ter sido tão importante para história do Brasil, liderada por um brasileiro – filho de escravos -, nós negamos tanto estas lideranças que não são da elite… Por que nós conhecemos tão bem o Almirante Saldanha da Gama e o Almirante João Cândido não? Eu reconheço o que Saldanha da Gama fez, mas porque não reconhecer também João Cândido como marinheiro?

JC – Feira do Livro – A Marinha ainda não aceita muito bem a Revolta da Chibata…

Cheuiche
– Acho que a Marinha brasileira não deve ter vergonha do que aconteceu. João Cândido estava há 20 anos na Marinha, ele entrou com 10 anos de idade na escola de aprendizes de marinheiro em Rio Grande. Com 30 anos, quando liderou a Revolta, ele representava grande parte da Marinha. Então, não podem ignorá-lo nem condená-lo. É preciso registrar os fatos, abrir todos os documentos. Com o acesso que temos hoje às informações dá para se ter uma ideia muito profunda de que, se ele quisesse, João Cândido teria destruído a cidade do Rio de Janeiro. Ele não o fez porque, acima de tudo, era um idealista.

JC – Feira do Livro – Por que a história do negro ainda é tão velada no Brasil?

Cheuiche
– Porque a história é escrita pelos vencedores.

JC – Feira do Livro – Qual o significado de João Cândido para a história do Brasil?

Cheuiche
– João Cândido é uma figura digna de um poema de Castro Alves, de um livro como O Prisioneiro, de Erico Verissimo. Tomara que eu tenha conseguido recriar a vida, a situação da época, os personagens, o ambiente. Que o leitor viva os acontecimentos e entenda quem foi, o que é João Cândido e o que representou na nossa história.

Revolta da Chibata:

Movimento desencadeado em 22 de novembro de 1910 na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Liderada pelo filho de escravos e gaúcho João Cândido, os marinheiros reivindicavam o fim dos castigos físicos. Mesmo após o presidente Hermes da Fonseca aprovar a anistia muitos revoltosos foram mortos.

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