O vira-páginas de Celito De Grandi

Matéria publicada no Jornal do Comércio, no caderno especial da 56° Feira do Livro.
Texto: Priscila Pasko/Foto: Gustavo Diehl

Não é sempre que, durante um evento, os personagens de uma história que envolve crime, mistério e anos de silêncio se reúnem em um mesmo ambiente. Mas quem costuma frequentar a Feira do Livro sabe que isso é viável, principalmente aqueles que assistiram à palestra sobre o livro do Caso Kliemann (Literális e Edunisc), na Sala Leste do Santander Cultural.

Escrito por Celito De Grandi, a obra foi muito bem recebida pela crítica, não somente pela qualidade do texto, mas, sobretudo, pela intensa pesquisa realizada sobre o crime ocorrido em 1962, quando Margit, esposa do deputado Euclydes Kliemann, fora assassinada em sua casa, em Porto Alegre. Passado um ano, um vereador disparou um tiro contra o deputado Kliemann, enquanto este concedia uma entrevista a uma rádio de Santa Cruz, matando-o.

Quase 50 anos depois, dividiram o mesmo ambiente as três filhas do casal Kliemann – Suzana, Virgínia e Cristina – o jornalista que acompanhou parte do caso, Celito De Grandi, e um dos delegados do episódio, Sérgio Ivan. Este falou sobre a importância de a história ser revivida 50 anos depois, pois, “assim as paixões sedimentam”.

Quanto ao fato de a polícia ainda não ter concluído o caso, Ivan argumenta que os profissionais também sofreram com pressões. “O calor dos interessados e a pressão de políticos, jornalistas, família, líderes partidários formam uma corrente tão forte que, se a polícia não tiver uma boa estrutura, ela entra nessa onda”. “O livro tem um caráter didático que deveria ser adotado no jornalismo e nas academias de polícia. É um claro exemplo do que se não deve fazer”, defendeu Sérgio da Costa Franco, presente na mesa.

O bate-papo foi disputado, deixando, inclusive, muitos inconformados do lado de fora da Sala Leste. Lá dentro, Celito falava sobre o trabalho desenvolvido no Caso Kliemann, ao mesmo tempo em que era bombardeado por elogios e alguns integrantes da mesa, como o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil. “Creio que ele [o livro] não pode ser chamado apenas de jornalismo, mas de literatura. Podemos incluí-lo em outras categorias de livros internacionais, como A sangue frio, de Truman Capote”.

O crítico literário do Jornal do Comércio, Jaime Cimenti, reiterou a qualidade da obra, dizendo que “um livro bom é aquele que nasce da necessidade. Celito separou o joio do trigo. O livro é um verdadeiro vira-páginas”, de acordo com Cimenti.

Entre reminiscências nostálgicas de uma época em que jornalistas disputavam com policiais a descoberta de um crime, o autor da obra encarava a plateia com o semblante tranquilo, enquanto mastigava lentamente pedaços de gengibre. Talvez estivesse pensando na próxima obra que pudesse mergulhar ou apenas gozando a felicidade de ter realizado uma das maiores reportagens de sua vida.

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