Um estigma da literatura

Matéria produzida para o Jornal do Comércio, no caderno especial da 56a Feira do Livro de Porto Alegre.
Texto: Priscila Pasko
Foto: Gustavo Diehl

Foto: Gustavo Diehl

Antoine Vitkine

 

Ter receio em folhear um determinado livro não faz parte da liturgia literária. Houve épocas em que autores quebraram o código ético da contribuição benéfica da leitura para propagar o terror e a vergonha que a humanidade viria a sentir no futuro. Mein Kampf, escrito por Adolf Hitler, é um exemplo disso.

O francês Antoine Vitkine rompeu o silêncio sobre as páginas do livro do III Reich e veio até a Feira do Livro divulgar Mein Kampf: a história do livro (Nova Fronteira, 2010). Saber como foi escrito, qual a influência das mensagens sobre os alemães e se o conteúdo anunciava o genocídio que mancharia a década de 1930 de sangue foram alguns temas abordados na palestra.

Hitler redigiu os textos enquanto estava preso, após ser condenado por tentativa de golpe político, em 1923. São 700 páginas de conteúdo racista, radical, antissemita, anticomunista e violento. “Mein Kampf é um livro longo, repetitivo e redundante. Mas ler nos anos 1930 e ler hoje não é a mesma coisa. A história já aconteceu”, argumenta Vitkine.

As mensagens de Mein Kampf eram claras, mas seus oponentes não levaram a sério. É justamente nesta atitude que reside o deslize. “Poderíamos ter impedido algo se tivéssemos lido”, lembra Antoine. Antes que Hitler chegasse ao poder, o livro já era vendido. Os casais recém-casados recebiam de presente, eram distribuídos em escolas, além de assumir o formato de história em quadrinhos. Durante o regime nazista, cerca de 12 milhões de exemplares foram comprados. E continua sendo comercializado.

Os direitos autorais pertencem ao estado da Baviera, na Alemanha, onde Hitler viveu, mas Mein Kampf ainda é republicado. O Estado alemão processa, mas não consegue ter controle. “Da parte dos alemães há hipocrisia, não são os mais indicados a dizer quem deve ou não ler”, diz Vitkine.

Na Turquia, o livro está entre os mais vendidos. Calcula-se que somente no ano de 2005, 80 mil cópias foram comercializadas. “No livro, Hitler faz esta pergunta, o que é ser alemão? No momento, na Turquia, eles também se perguntam: o que é ser um turco?”.  Para Vitkine, isso explica, em parte, a repercussão do livro.

A história com os olhos do passado

Perguntar-se o que levou uma nação a ler e seguir as mensagens de um livro é uma questão que martela a cabeça de muita gente hoje. “Se Hitler não estivesse no poder, este livro não teria influência. Mein Kampf não era o único livro de extrema direita com ideais antissemitas e racistas”, reitera Vitkine. “Devemos comentá-la [a obra], mas não criticar quem leu e levou isso a sério. A história nunca é escrita antes”.

O francês acredita que os alemães também são vítimas do nazismo. “Impossível pensar que não eles não tivessem curiosidade em ler Mein Kampf. Certamente, os alemães leram muito mais do que dizem”. Tal curiosidade se reflete em um comportamento observado por Vitkine durante suas pesquisas: toda a vez que havia alguma crise mundial, um conflito entre nações, as pesquisas de Mein Kampf registravam um “pique” nas bibliotecas.

No dia 31 de dezembro de 2015, os direitos autorais do livro cairão em domínio público. Antoine Vitkine não enxerga um cenário tão obscuro. “Por que não confiar nos cidadãos? De qualquer modo, proibir é algo impossível com a internet. Acho que são questões ultrapassadas. Temos que fazer o que estamos fazendo neste momento: discutir, refletir, sem ter impressões de que o céu cairá sobre nossas cabeças”.

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