Quando os pais se tornam filhos

Texto publicado no blog 3Meia5

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“Te cuida na rua. Presta atenção na tua bolsa. Cuidado ao atravessar a avenida.” Tais alertas, tão comuns dado aos filhos, partiram de mim para minha mãe, hoje, durante o almoço. Não sei se alguém aqui já observou, mas salvas exceções, tornamo-nos pais de nossos pais a partir de certa idade.

Seria uma espécie de “eterno retorno”, denominado por Nietzsche, porém um processo que se alterna entre pessoas que possuem um forte elo. O amor, a atenção, a dedicação e a preocupação com os nossos pais começam a alcançar uma escala crescente – e não menos angustiante – com o passar do tempo.

A angústia não se deve ao peso da responsabilidade com o outro – afinal, somos frutos deles. A aflição surge quando nos damos conta que estas pessoas que tanto amamos envelhecem. A velhice não entristece por trazer em sua bagagem a sabedoria, a segurança e a maturidade. A velhice assusta pelo perigo iminente da perda.

A queixa de uma dor, as visitas mais constantes ao médico revelam que o superpai ou a supermãe estão perdendo, aos poucos, seus poderes. Isso incomoda, cutuca a certeza que até pouco tempo estava ali, sentada na sala de jantar, esperando nossa mãe trazer o prato favorito.

Hoje, ao pegar a mão de minha mãe ao atravessar a rua, o faço mais por ela do que por mim – como naqueles velhos tempos em que a fragilidade partia de mim. Não sei se o sentimento dos filhos é unânime, mas sinto uma vontade involuntária de poupar a minha mãe. Não da vida, da beleza que ela possui, muito menos da vitalidade pulsante que há dentro dela. Mas poupá-la da menopausa, das dores nos joelhos, da vista gasta, da dor nas costas.

Como não posso intervir no ciclo da Natureza e, por isso, a favor ou contra a minha vontade, a vida seguirá o seu caminho, continuo segurando firme a mão de minha mãe, mesmo que já estejamos muito distante de uma avenida movimentada.

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Priscila Pasko: Tipo sanguíneo: jornalista. Amante das palavras. Ignorante confesso, curiosa assumida em constante transformação.

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5 comentários sobre “Quando os pais se tornam filhos

  1. Texto lindo, como sempre.
    Me lembrou If The Brakeman Turns My Way, do Bright Eyes: “First a mother bathes her child / Then the other way around / The scales always find a way to level out”.

    Mas é claro que, se eu passasse para minha mãe ler, ela ficaria puta e diria “TÁ ME CHAMANDO DE VELHA? JÁ TÁ ME ENTERRANDO?”.

    Tão certo quanto a velhice é o drama materno. 😉

  2. enquantoescrevo disse:

    É verdade. Apesar de ser incômoda, essa sensação nos ensina a dar o devido valor aos pais. Acho que é um dos primeiros sinais da nossa maturidade. Bj

  3. É belo o seu texto, é lindo seu compromisso com a felicidade de sua mãe. Tenho certeza que ela sente uma espécie de orgulho do bem. O que deveria ser natural e comum, filhos cuidando de seus pais.

    • enquantoescrevo disse:

      Este é um assunto quase universal, não é Léo? Recebi depoimentos de filhos que compartilhavam a mesma preocupação. Como costumo dizer: nem todos podem ser pais, mas todos somos filhos. Um abraço.

  4. vilma ferraz disse:

    Bahh!! Sem comentários!!
    Não tem tamanho o orgulho e amor que tenho por você minha filha.
    Só sei dizer que TE AMO DEMAIS!!
    Sou feliz por ter vc em minha vida!!

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