Muito além das cartas – última parte

Confira a primeira e a segunda parte da matéria.

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Atrás do personagem
Em Gravataí, Luciana continua a caminhada apressada. Enquanto entrega correspondências faz gracinhas com os moradores, brinca e fala com os cachorros, talvez na esperança de conquistar a confiança deles. Missão quase impossível. O uniforme azul e amarelo condena. Os cães latem, fazem malabarismos circenses para tentar se aproximar do indivíduo que se aproxima da caixinha de correspondência.

Entre uma entrega e outra, a carteira conta da rotina. Acorda às 6h30min, toma banho e leva o filho de dois anos à creche, acompanhada, de bicicleta, do primogênito de 11 anos. Na volta, prepara o café e vai trabalhar, a duas quadras de casa.

Luciana é quem faz o horário de expediente: quando mais rápido faz as entregas, mais cedo volta para casa. Muitas vezes, às 15h já se encontra no aconchego do ninho. Por isso ela corre. E muito.

“Sabe que aqui eu sou um personagem. Aqui eu sou a Carteira, não a Luciana. Fora daqui ninguém me reconhece. E acho que é por isso que as pessoas confiam em quem está por trás do uniforme”.

No início das atividades como promotora postal, Luciana conta que o marido ficou um pouco desconfiado das seguidas reuniões que ela mesma organizava. “Tudo que é homem acha que as mulheres se juntam para não existirem mais homem. É a mania de perseguição deles”, ironizou. “Mas ele me apoia muito. Aliás, é o único marido que está presente em quase todas as reuniões e palestras de conscientização realizadas para as mulheres.”, conta envaidecida.

No caminho de uma casa a outra, gritos e discussões entre um homem e uma mulher interrompem a entrevista. Luciana olha para a reportagem e faz um sinal com o dedo indicador em direção à casa. “Ouviu? Te disse. Ouvir este tipo de coisa é normal. Não dá para fazer nada. Só entrego a carta e saio. O trabalho é só esclarecer as mulheres e dar o número de telefone (180). Não podemos nos meter”, diz desconsolada.

“Bah, eu já vi marido dando na mulher na minha frente. E a mulher com uma criança pequena no colo. Nessa época eu trabalhava na entrega de conta d’agua, nem sabia como agir”.

Em briga de marido e mulher, pode meter a colher
No caso de Luciana existe uma preparação para lidar com a situação. Como um vizinho pode agir, quando muitas vezes, nem os parentes se envolvem?

É possível que o registro de lesão corporal seja feito por um terceiro, mesmo sem a permissão da vítima. Assim, um inquérito será instaurado e remetido ao Judiciário. No entanto, após o registro, não é mais possível retirar a queixa – retratar-se – na delegacia. Na opinião de Nadine, o procedimento pode auxiliar, mas nada poderá ser feito se a vítima não quiser dar andamento à ação. Inclusive um projeto de lei está sendo estudado para permitir que, no caso de uma denúncia anônima, a polícia entre na casa para se certificar de que realmente houve agressão à mulher. No entanto, ainda causa muita controvérsia no meio jurídico.

Entre denúncias, brigas e conflitos um dado impressiona. “Cerca de 85% dos atendimentos da delegacia não são considerados casos policiais – e o pior é isso – nem serão resolvidos com a simples intervenção da polícia”, contabiliza a delegada. Ela reforça que o problema está mais centrado na saúde pública, no atendimento psiquiátrico e psicológico, por exemplo.

Quem mais frequenta a delegacia é a classe média, porém, a violência é democrática. A mulher pertencente à classe média alta também é atingida pela agressão. Entre elas estão médicas, professoras e funcionárias públicas do alto escalação. A maioria, pelo menos a que mais denuncia, é a mulher de baixa renda. Tal comportamento, em que nem todas as mulheres resolvem ir até a delegacia, impede que exista o registro do número exato de agressões.

A triagem da violência
É para se ter um cenário mais próximo possível da realidade que o Ministério Público do Rio Grande do Sul criou, em novembro do ano passado, um banco de dados pioneiro no país. O setor responsável é o Núcleo de Apoio ao Combate à Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher. Na coleta de dados, considerada mais técnica, estão sendo armazenadas informações como o local em que a mulher foi agredida, quantas vezes, se houve reincidência, o tipo de agressão, o número de filhos, os resultados obtidos pela Justiça e se houve influência de drogas em geral na agressão. A partir daí, será possível visualizar um quadro estatístico mais elaborado.

O cadastro passa então pela primeira etapa, que se refere à estruturação. A seguir, será o treinamento, a orientação e a capacitação das mulheres e dos órgãos que as atendem. Até a primeira quinzena de março, haviam sido feitos 598 cadastros.

Luciana, enquanto isso, continua a caminhada no sol forte do meio-dia. O fôlego permanece praticamente o mesmo do início da jornada. Quando interrogada se enxerga um fim para a situação, a carteira não é tão otimista. “Olha, eu espero dar uma luz, uma ajuda. Quero dar uma palavra de incentivo. Eu acho que é só começo, não é melhor nem pior. Aos pouquinhos, a gente quer conscientizar as próprias mulheres que estão mais próximas da gente, como no trabalho”. E Luciana caminha. Muito. E rápido. Com a certeza de que não está sozinha.

 

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