Corpo: um estranho em nós

No último domingo, assisti Turnê – com direção de Mathieu Amalric – que também atua como protagonista do filme. Bem resumidamente, a trama conta a história de um ex-produtor de televisão francês Joachin Zand (Amalric) que resolve se arriscar nos Estados Unidos. Lá, ele convida um grupo de mulheres a participar de um show no estilo New Burlesque com o objetivo de levar a turnê pela França. Ok.

As atrizes que atuam em Turnê – pelo menos grande parte delas – são dançarinas na vida real. E é justamente por este motivo que a história ganha veracidade. Explico. As dançarinas têm barriguinhas salientes, corpo flácido, celulite e seios que (oh, que horror!) se renderam à força da gravidade.

Enquanto, para mim, aquelas cenas significavam a redenção de mulheres reais, interpretando mulheres reais em uma tela que ampliava ainda mais suas generosas formas e seus “defeitos” (muitas aspas, por favor), ouvia comentários – lamentáveis – das espectadoras. “Nossa, credo!”, “Que horror…” e outras observações do gênero.

Curioso que no filme há uma dançarina – a que tem o corpo mais torneado – que tem vergonha de mostrar os seios durante a apresentação de seu número no show. Simplesmente não consegue, é insegura, tem vergonha. E é justamente a colega “fora dos padrões”, a com gordurinhas salientes que lhe dá a lição de moral. “Um dia você vai aprender a gostar do seu corpo”. Bingo! Quase aplaudi.

***

Só uma mulher poderá traduzir o peso – ou a leveza – da importância que o corpo tem para ela. É um embate constante. Não é apenas o peso; é a forma. Não é apenas a forma; é o padrão. Não é apenas o padrão; é o aceitar-se. Está aí a palavra: aceitar-se. Olhar-se no espelho e se gostar, transar com a luz acesa, despir-se sem pudor em frente às amigas.

Mas nada disso é tão fácil quando o que a mulher vê refletido no espelho é um estranho, que nunca parece encaixar-se em na faixa limítrofe imaginada por ela em algum momento de sua vida. O corpo nunca é o bastante, o espaço nunca é o bastante, nada parece o bastante. É uma luta constante da mulher contra um estranho: o seu próprio corpo.

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Pensei em tudo isso durante aquela sessão de cinema. Talvez as críticas dirigidas às dançarinas do filme apenas refletissem a opinião de mulheres que não reconhecem o seu corpo, sua flacidez e sua fragilidade frente ao tempo. O dia em que elas resolverem dar a mão a este estranho, pode ser  que elas o entendam melhor.

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