“Quem ela é?”

Essa foi a pergunta que o meu avô fez ao meu pai, enquanto eu me sentava à mesma mesa que ele. Nunca fomos muito próximos, já que meus pais são separados, e o contato com os familiares do lado paterno nunca foi uma prioridade para mim.

Mas o fato é que meu avô não me reconhecia. Sofria de Mal de Alzheimer, devia estar com quase 90 anos. Não lembro de ter sentado no colo daquele senhor de olhar perdido durante minha infância, de ter pedido para me embalar em um balanço ou de ele ter me buscado na escola.

Mesmo assim, o fato de não ser lembrada foi uma das piores experiências da minha vida. Meu rosto não foi reconhecido, minha presença não fez a menor diferença, minha voz não causou nenhuma reação. Era uma folha em branco à frente dele. Nem rancor, carinho, ódio ou desprezo. Nada.

Daquele momento em diante eu sabia que havia sido deletada da vida de alguém, não por escolha, mas uma debilidade cruel que apaga de forma sorrateira as pegadas que deixamos pela vida. Não existir dói. Não fomos preparados para representarmos o vazio.

Ali eu me indaguei se eu existia por ser de carne e osso ou pelo fato de minha existência ser validada pela lembrança que outros tinham de mim. Afinal, o que faz com que eu exista?  Qual a importãncia que os meus rastros têm na vida daqueles que me rodeiam? Em que parte da memória de alguém estarei guardada? Em que outro pedaço serei esquecida?

Vejo e ouço muitas histórias de pessoas que perdem a memória justamente quando ela seria imprescindível, quando a lembrança, muitas vezes, é o único apoio da solidão ou da invalidez. E tive medo de deixar de existir para alguém novamente.

Não quero uma “próxima vez”, mas, caso isso aconteça novamente, não me resignarei ao anonimato imposto. Tentarei registrar, quantas vezes forem necessárias, a minha presença, o meu existir. Precisarei fincar minhas pegadas, mesmo sabendo que após o segundo passo, o primeiro não exista mais.

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2 comentários sobre ““Quem ela é?”

  1. Marju disse:

    Meu pai me disse isso, no Hospital, depois de uma isquemia que o matou dois ano depois. Me confundiu com minha irmã, 14 anos mais velha. Eu, aos 18, vi ele pela terceira vez. E também não o reconheci. O não ser lembrada é tão ruim quanto o não lembrar….
    Amo teus textos, já disse isso?
    bj

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