O inconveniente aplauso egocêntrico

Aqueles que têm o costume de frequentar espetáculos, seja qual for sua magnitude, sabe que entre os cidadãos existe – e persiste – a presença de um personagem enigmático que, provavelmente, deva ter perpassado a história da humanidade desde que ela definiu como elogio a junção abrupta e veloz das palmas das mãos. O cidadão em questão sempre me chamou a atenção e intrigou minha curiosidade.

Inadvertidamente, sua presença é sentida após a apresentação de algum número artístico, discurso de churrasco ou no Parabéns a você. Refiro-me, caros, àquele que faz questão de deixar claro que a última palmada é sua. Observe, ele não se intimida diante do hipotético silêncio que se segue após a explosão de vivas e bravos. Sempre – sem receio de generalizar – vai existir a última palmada após um aplauso. Ele é o eco individualista do ato, é o monólogo de uma saudação egocêntrica, é o último suspiro de um júbilo autoritário.

Suspeito que nem mesmo o Senhor Palmada – vamos chamá-lo assim – tenha consciência de seu ato, pois ele é movido pelo calor da hora. Sozinho na plateia, possivelmente ele não sentiria o mesmo deleite formigando cada centímetro de suas mãos. O que o instiga é justamente o desafio de ultrapassar os limites da coletividade. Estar a três palmas à frente dos demais é seu dever, afinal.

Durante um estudo feito por uma universidade de Londres, pesquisadores do Curso de Medição de Palmas fizeram uma contagem do número destes sons retardatários durante um show de stand up ocorrido em março deste ano. Os resultados apontaram que, caso todas as palmas individuais fossem isoladas, elas somariam exatos 42 minutos de duração. Um show à parte, portanto.

Contudo, nenhum registro parece tão singular quanto um espetáculo que aconteceu há aproximadamente dois anos, em Porto Alegre, no Sul do Brasil. Na ocasião, durante o show de um cantor prestigiado da MPB, houve um embate entre o Senhor Palmada e outros espectadores que reivindicavam o mesmo posto. Como nenhum deles se contentava em ficar para trás, o que se sucedeu foi uma contínua e ininterrupta sequência de palmas isoladas. Por motivos óbvios, o show teve de ser cancelado sem que o artista em questão cantasse sequer a primeira música, já que o incidente ocorreu logo em sua chega ao palco.

Mesmo a contragosto, o Senhor Palmada ainda divide a atenção com outro sujeito anônimo, onipresente e que também possui certa dificuldade em fazer parte da mesma unidade de tempo humorística do restante do grupo: é o Senhor Risada Fora de Hora. Ele marca sua presença, sobretudo, em salas de cinema onde são exibidos filmes chamados “de autor” ou experimentais, e em peças teatrais em que a metáfora e o absurdo tomam proporções gigantescas.

É quando o silêncio na plateia impera, quando apenas os atores – na tela ou no palco – se manifestam que, que o Senhor Risada Fora de Hora se destaca, ressaltando sua relativa inteligência, sua noção equivocada de ironia exacerbada e seu questionável senso de humor, deixando o público receoso e inseguro quanto à compreensão do espetáculo em questão (“estamos assistindo a mesma coisa?).

Na dúvida, os demais esboçam uma risada falsamente sarcástica, abrindo espaço para que os intelectuais soltem as gargalhadas. É neste momento em que o autor da peça, portanto uma expressão indagadora, corre aos seus alfarrábios para revisar as falas, e o projecionista do filme confere se realmente não cometeu nenhum erro.

Mas nada disso parece ser tão grave, meus amigos, quando as características do Senhor Palmada e a do Senhor Risada Fora de Hora se fundem. Neste caso, peço apenas que não me convidem a fazer parte desta plateia. Pelo bem de todos.

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