“Não”

Muito se fala e se tem conhecimento de relatos revoltantes de violência contra a mulher. São maridos, filhos, irmãos e ex-cônjuges que usam da força, da ofensa verbal e de armas de fogo, ou branca, para fazer valer a sua vontade. No entanto, existe outro ambiente, além do doméstico, onde a agressão contra a mulher é cometida e, infelizmente, não anda merecendo a devida atenção. 

No escuro, em um pub, ou simplesmente ao ficar com alguém, estas “relações” também comportam, além das cantadas, ofensas e agressões. Não quis mais ficar com o cara? Não retribuiu o beijo? Não aceitou repetir a dose da noite passada? Abre-se aqui um precedente para que o homem em questão se sinta rejeitado o bastante para desferir uma ofensa ou, pior, chegar às vias de fato, ainda que “discretamente”.

É inegável que o poder intimidador da força masculina é desigual. Aos homens que carregam em seu DNA o perfil agressivo, o “não” fere o seu orgulho de forma vexatória.

E, a partir daí, chegam as ofensas por e-mail, por SMS ou via rede social – sem falar na difamação entre os amigos. E, apoiados na falta de intimidade e na certeza de que a chance de um reencontro é remota, eles desencadeiam uma série de agressões, na maioria das vezes verbal. Tal cenário não é fruto do acaso ou de um pequeno estranhamento: é violência, sim. A palavra dói, machuca e ofende.

Nós, mulheres, não somos produtos, bens que devem servir de posse a alguém. Temos o direito (vejam só!) de não querer transar, não querer ficar, de não gostar. E ponto. Não é nada pessoal, apenas o nosso direito, assim como vocês, homens, têm os seus – e que, alguns, de forma equivocada, lançam mão da violência para garanti-los. Lembro-me do trecho de um artigo publicado pela filosofa Márcia Tiburi sobre o tema: “o patriarcado tratará como anomalia tudo o que se coloca contra a sua ordem”. Fato.

Não disponho de dados científicos ou gráficos que atestem minha observação, mas creio que a experiência empírica, entre conversas com amigas ou na própria vivência de uma situação desagradável, corrobora com os exemplos citados. Muito provavelmente você (ou alguma amiga), um dia, foi chamada de “vadia”, “vagabunda” e outros adjetivos não mais simpáticos por ter dito “não”.  

Portanto, você, homem, saiba que eu sou mulher, dona de meu corpo e de minhas vontades. Tenho o direito de não querer você. Tenho direito de escolha. Tenho o direito de não gostar de você. Tenho o direito de dizer “não”. E não ser agredida por isso. 

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