Clarividência remota

Estou no ônibus. Não importa qual nem a hora. Tanto faz a direção. Dentro dele, sentada atrás de mim, uma mulher atende o chamado do celular e diz à sua prole o que deve comer, se o pão com a mortadela ou o “arroz-que-ficou-separado-no-potinho-ao-lado-da-panela-com-a-coxa-de-galinha-que-sobrou-do-almoço”.

Ao mesmo tempo em que pede licença para se sentar em um dos três únicos lugares vagos, a mãe descreve com riqueza de detalhes em que lugar cada mantimento se encontra. Minuciosamente, ela indica cores, formas, conteúdo, espaço, posicionamento e até mesmo prazo de validade. Clarividência remota.

Do outro lado da linha, provavelmente, um ser desnorteado segue com sucesso as informações, pois a mãe permanece abrindo os caminhos e ajudando o filho a vencer as fases do jogo na caverna refrigerada.

Mas – não se esqueçam – ela é mãe. E como tal empurra o filho até o último passo, dizendo onde o prato deve ser deixado quando a refeição terminar. É só então que a mãe dá um destino ao vazio lambuzado.

No assento ao meu lado, uma esposa também explica ao marido onde está a comida. Revela a ele, de-ta-lha-da-men-te, de onde vem a comida que se manifesta em seu prato todos os dias. O milagre é descoberto. Ele sente dificuldades. Ela diz que não demora.

Em quase toda a viagem, várias vozes recomendam, orientam, explicam, pedem, ameaçam – sim, há mulheres que apartam brigas pelo telefone celular – à distância.  Em um ônibus, não importa qual nem a hora. Tanto faz a direção. Dentro dele, sentada atrás de mim ou de você, certamente há uma clarividente remota.

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