Clarividência remota

Estou no ônibus. Não importa qual nem a hora. Tanto faz a direção. Dentro dele, sentada atrás de mim, uma mulher atende o chamado do celular e diz à sua prole o que deve comer, se o pão com a mortadela ou o “arroz-que-ficou-separado-no-potinho-ao-lado-da-panela-com-a-coxa-de-galinha-que-sobrou-do-almoço”.

Ao mesmo tempo em que pede licença para se sentar em um dos três únicos lugares vagos, a mãe descreve com riqueza de detalhes em que lugar cada mantimento se encontra. Minuciosamente, ela indica cores, formas, conteúdo, espaço, posicionamento e até mesmo prazo de validade. Clarividência remota.

Do outro lado da linha, provavelmente, um ser desnorteado segue com sucesso as informações, pois a mãe permanece abrindo os caminhos e ajudando o filho a vencer as fases do jogo na caverna refrigerada.

Mas – não se esqueçam – ela é mãe. E como tal empurra o filho até o último passo, dizendo onde o prato deve ser deixado quando a refeição terminar. É só então que a mãe dá um destino ao vazio lambuzado.

No assento ao meu lado, uma esposa também explica ao marido onde está a comida. Revela a ele, de-ta-lha-da-men-te, de onde vem a comida que se manifesta em seu prato todos os dias. O milagre é descoberto. Ele sente dificuldades. Ela diz que não demora.

Em quase toda a viagem, várias vozes recomendam, orientam, explicam, pedem, ameaçam – sim, há mulheres que apartam brigas pelo telefone celular – à distância.  Em um ônibus, não importa qual nem a hora. Tanto faz a direção. Dentro dele, sentada atrás de mim ou de você, certamente há uma clarividente remota.

Um passeio Kafkaniano em Porto Alegre

Ônibus Jardim Ipê. Escolhi o lado direito do veículo para me sentar, pois ainda havia sombra. Com a cabeça encostada na janela, passei pelo Túnel da Conceição e lembrei do quanto eu gostava destes lugares quando eu era pequena.

Uma senhora ocupa o lugar vazio a minha esquerda. “Licença”. Pois, não”. Volto a olhar para a rua. E eis que ela aparece, sorrateiramente. Pequena, discreta e com as anteninhas agitadas. Ficou me olhando, creio eu. “Não, sua atrevida, nem tente qualquer tipo de diálogo”, pensei, “Está longe de ser Gregor Samsa. Lembre-se, você está dentro do ônibus Jardim Ipê!”.

Droga! O que eu faria? Olhei para a senhora que dividia o assento comigo, buscando compartilhar aquele sentimento de repulsa e asco, mas nada. E a barata continuava ali. Olhei para a mulher novamente e nenhuma resposta ao meu apelo silencioso. Tive vontade de alertá-la que a indiferença dela só contribuía para o meu desespero. Ela não se importava com baratas? Que tipo de mulher era ela?

Precisava dar um jeito de eliminar aquele ser nojento da janela… Mas como? Não poderia tirar o meu AllStar dos pés e batê-lo contra a janela. Imagina a cena!

Chega! Preciso tomar uma atitude madura, que qualquer mulher tomaria em meu lugar. Com um movimento brusco pedi licença à mulher infiel, que não cedeu aos meus olhares de súplica, e sentei-me lá atrás, no fundo do ônibus, sabe? Onde os assentos se dispunham mais altos que os demais e onde eu assistia de camarote o olhar solitário e angustiante da mulher para a barata.

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