O choro das carpideiras ou O manifesto contra Leonam

Tomo como prática, desde que me formei em Jornalismo, na Pucrs, informar ao meu interlocutor de que não, não fui aluna do Leonam na cadeira de Aprofundamento de texto e no estágio de Redação Jornalística. Confesso que tal negativa está carregada de ressentimento.

Claro que, ao manifestar minha opinião, corro o risco de ser indelicada com os demais professores que com tanto zelo me ensinaram e orientaram na lida apaixonada pela escrita. Nada tenho a me queixar deles. Mesmo. De verdade. Muito do que escrevo e dos erros que tento evitar hoje vêm, justamente, dos conselhos de meus mestres.

No entanto, o nome de Leonam continua a soar com suas sílabas mântricas pelos corredores da Famecos e na boca de jornalistas competentes e reconhecidos. É demais para mim. E a minha não-aula e o meu não-professor se fazem tão presentes quanto realmente tivessem sido um dia.

Fora do saguão da Famecos, pertenço ao grupo conhecido como “as carpideiras de Leonam” ou ainda “os órfãos de Leonam”. Poderia arriscar, inclusive, todos, ou pelo menos parte, dos mandamentos literários ditados por este senhor simpático, tamanha divulgação de seus feitos.

Aliás, esta é uma forte marca de grande parte dos alunos de Leonam: a devoção cega, o brilho nos olhos quando se referem ao mestre de maneira quase obcecada. Leonam comanda um culto digno de receber atenção e vigília. Uma seita pode ser perigosa, por que não?

A propósito do carisma do professor: faço votos de que um dia sua máscara caia saguão da Famecos abaixo enquanto ele discorre mais um de seus conselhos. Seja intragável e incompetente, Leonam! Ao menos uma vez! Permita que falem mal de ti. Não apenas um ou dois alunos, mais, muito mais (minha pesquisa empírica não completou uma dezena de desagrados).

É diante dos motivos expostos acima – e outros que irão despertar ressentimento no calor da hora entre um elogio e outro ao professor – que acredito nunca me curar deste mal. Terei a chance de fazer mestrado, doutorado, trabalhar na redação da New Yorker, escrever um livro, ganhar o Pulitzer, e, ainda assim, algum jornalista irá jogar na minha cara que foi aluno de Leonam. E terei de engolir a seco e dizer com desdém “já ouvi falarem dele”.

Sobre o dia mais importante da minha vida

Há, mais ou menos, seis anos estava me separando do meu marido e vindo de mala e cuia para Porto Alegre, para o colo e a casa de minha mãe. Sem perspectiva alguma, fiquei à deriva sem saber o que fazer da vida. Uma idéia, na época considerada uma loucura, rondava a minha mente: voltar a estudar. “Mas fazer o quê?”, pensava, já que eu me considerava velha demais. Vários colegas do ensino médio estavam terminando a faculdade e eu ali, sem destino certo aos 21 anos.

Não tinha dinheiro, portanto, não haveria a possibilidade de pagar uma faculdade. Solução: empréstimo a um banco (ao qual ainda estou devendo, diga-se de passagem) para conseguir me matricular em um cursinho pré-vestibular. A saída, assim como para muitos, era passar na UFRGS.

Há 4 anos eu não entrava em uma sala de aula. Tive que relembrar e aprender muita coisa. Perdi sábados, domingos e feriados. Conheci pessoas maravilhosas, com quem até hoje mantenho uma relação de verdadeira amizade. No primeiro vestibular, faltaram 30 pontos para que eu conquistasse a vaga de Relações Públicas. Não consegui, mesmo assim, havia vencido.

Pensei em desistir, mas resolvi me dedicar mais um ano em outro cursinho. Sem finais de semana, sem feriado, sem namorado, com pouco dinheiro, mas já empregada em um escritório de recuperação de dados de Hd’s. No meio do ano de 2005, fiz o Enem para “testar” a segunda prova da UFRGS que eu faria. Foi relativamente fácil, se comparada com a da Federal. Tirei uma nota bastante satisfatória.

Chegou o segundo vestibular e eu senti a responsabilidade multiplicada em minhas costas, afinal, seria a segunda e, para mim, a última chance. Não teria fôlego para encarar mais um ano de cursinho. Não passei. Um dos problemas da prova da UFRGS é que a média vai aumentando e, por mais que você se dedique, no ano seguinte, provavelmente, ela será maior.

Sendo assim, voltei minha atenção e esperança à prova do Enem e ao ProUni, onde teria a chance de ingressar na faculdade. Em Janeiro de 2006 li o meu nome na lista dos aprovados. Iniciei o curso de RRPP na Pontifícia Universidade Católica do RS.

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Nunca esquecerei, e me emociono sempre que me lembro, do dia em que fui com minha mãe pegar a minha carteirinha na Pucrs. Finalmente havia conseguido. Não foi sorte, eu conquistei. No segundo semestre já havia trocado o curso: estava na turma de Jornalismo.

Foram os quatro anos mais importantes da minha vida. Aprendi muito, li muito, saí da bolha. Me apaixonei pela área e encontrei o meu espaço no mundo. Conheci pessoas fantásticas, fiz estágios que me proporcionaram experiência e sei que, de alguma forma, me tornei uma pessoa melhor. Me dediquei com afinco à oportunidade que me foi dada, assim como os demais alunos “ProÚnicos”, que levantaram as médias da faculdades particulares. Pessoas que não pagaram o curso, porém, que se dedicaram, destacaram o seu trabalho e mostraram porque mereciam estar onde estavam.

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Daqui a pouco, no dia 29 de janeiro de 2010, às 17h estarei entrando no prédio 41 da Pucrs, de toga, dedicando à minha mãe esta conquista, mostrando a ela que pouco me importa se não tenha conseguido me ajudar financeiramente, mas que tenha me sustentado no colo quando eu mais precisei.

O meu maior bem, o meu tesouro, carrego, hoje, aqui comigo: o conhecimento. Isto, nenhuma crise financeira, terremoto, ditadura ou doença poderá arrancar de mim. Levo o que aprendi comigo e o repassarei a quem eu puder, pois este é o direito de qualquer ser humano: aprender e se tornar uma pessoa melhor.

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Agradecimento sincero aos meus colegas, professores, ex-chefes e ao meu namorado que me apoiou de forma incondicional nesta caminhada.

Como agradecer em 20 segundos

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“Quero agradecer o apoio da minha mãe… Não, não, perai, de novo. Quero agradecer à minha família e, em especial, à minha mãe que sempre me ajudou … Ainda não deu? Tá, agradecer à minha mãe, aos meus amigos que sempre estiveram ao meu lado… Ihh… tem o meu namorado, a minha vó, a minha vizinha que aquela vez conseguiu…”

Os trechos expostos acima traduzem um grande problema a ser enfrentado por mim e pelos meus colegas no próximo sábado, dia 3 de outubro. Iremos gravar o depoimento que será exibido momentos antes da nossa formatura, no dia 29 de janeiro de 2010, na Pucrs. Detalhe: dispomos de infindáveis 20 segundos para traduzir o que foi vivenciado durante quatro anos.

Concordo que assistir a uma formatura com duração de mais de três horas acaba com qualquer paciência, maquiagem e cabelo. São filmagens, homenagens, tio tocando trompete, flor pra lá, flor pra cá, fora os discursos. Nem todos os presentes na solenidade têm disponibilidade em ouvir 60 formandos divagarem sobre a trajetória acadêmica.

Sei que nós, jornalistas, estamos habituados a lidar com o tempo e o espaço. O texto que precisa ser cortado para se encaixar na diagramação do jornal, o boletim de rádio que não pode ultrapassar os sagrados 1’30, ou ainda a matéria da tv que “tem que entrar” com 1’45.

Mas como irei agradecer à minha mãe, em 20 segundos, às passagens de ônibus que ela pedia emprestada aos vizinhos quando eu não as tinha para ir até a Puc? Como falar em 20 segundos aos meus amigos que o apoio deles foi fundamental para que eu não desistisse em tentar mais um vestibular? Ao meu namorado, que é o meu parceiro e que sempre esteve ao meu lado? Como falar dos professores em 20 segundos? Pase, Leonan, Marquinho, Fabian e outros não menos importantes? Ao tio do bar pelo Capuccino da Famecos? Alguém pode me ensinar?

Tudo isso pode ser feito nos bastidores, eu sei. No entanto, aqueles 20 segundos têm um valor especial que eu gostaria de dedicar a cada um que colaborou com este momento tão importante que é a minha formatura.

Enquanto não aprendo, vou treinando… “Mãe, quero te agradecer pelo incentivo. Vó, a senhora que sempre me ajudou quando eu precisei. Amigos… O quê? Já fechou 20 segundos? Tá, de novo! Então terei que tirar alguém? Assim não dá. Ô Wagner, fala com o cara aqui da produtora! Ele não quer colocar…”