A arte da terapia entre escovas, esmaltes e depilação

17/12/2009 at 01:26 (Por aí...) (, , )

Enquanto a recepcionista falava ao telefone com a gerente da pequena sala sobre a entrevista, chegava no local uma mulher com a aparente expressão de cansaço. Estava 15 minutos atrasada. Além do ar abafado e úmido daquele fim de manhã, estava irritada porque teve que aguardar o encanador arrumar um vazamento na pia da cozinha, o que provocou o atraso.

A manicure já trazia nas mãos alicate, lixa e o protótipo de aquarela: uma pequena toalha branca manchada com as mais variadas cores de esmalte. Pediu que a cliente se sentasse e perguntou se a receita da borra de café não havia resolvido o problema da pia entupida. Ao desligar o telefone, a recepcionista interferiu na conversa, afirmando que borra não funcionava e que bom mesmo era o Diabo Verde, “já havia dito isso a ela”, reclamou a consultora de encanamentos.

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É neste ambiente dos salões de beleza, entre esmaltes, chapinhas e depilação, que a atividade empírica da terapia se manifesta. O cabelo escovado, a unha francesinha ou a sobrancelha bem feita não são os únicos atrativos, mas a boa e velha conversa. Casamento, trabalho, filhos, saúde e sexo são os assuntos que disputam espaço com o som ininterrupto dos secadores de cabelo e do telefone que impera no ambiente.

Talvez sejam por estes motivos que poucos homens freqüentam os salões de beleza. A passagem é rápida e eficiente, sem muitos gastos ou conversa. Muitas vezes, o corte de cabelo é feito durante a leitura concentrada de um jornal ou revista, sem abertura para muito papo.

Por isso que a cabeleireira Maristela Munhoz da Costa, de 35 anos, prefere trabalhar com mulheres, afinal, elas gastam mais. Apesar disso, a profissional, que trabalha há 14 anos na área da beleza, acredita que deveria ter um retorno financeiro maior: “Além de ser cabeleireira, sou terapeuta!”. Tela, como é chamada pelas colegas de trabalho, diz que é intimada a dar conselhos (na maioria das vezes sobre relacionamentos amorosos), mas não se sente a vontade para isso.

O salão de beleza, localizado na Cidade Baixa, em Porto Alegre, é reconhecido, inclusive, como o protótipo de uma clínica de reabilitação. Isso ficou visível para Tela, quando o marido de uma cliente praticamente despachou a esposa na sala: “Ele disse que não agüentava mais a mulher em casa. Estava certo de que ela precisava ficar ali um pouco”, conta a cabeleireira rindo.

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Cena do filme "Caramelo"

Algumas pesquisas atestam que a mulher fala cerca de 20 mil palavras por dia, enquanto os homens se contentam com sete mil. Aliando estes dados com o número de mulheres que passam pelo salão onde Maristela trabalha, o número torna-se assustador para qualquer homem: aproximadamente 4 milhões de palavras circulam, por semana, no espaço de 72m2 (descontando as palavras ditas fora dalí). 

A fama dos salões de beleza de serem antros de fofoca, condiciona o comportamento discreto de Adriana Mattos Teresa, de 28 anos. A alcunha é mais dirigida às manicures, por isso, Adri não fala muito se a cliente não der uma entrada. “Não somos fofoqueiras. Muitas vezes, nem falamos. São as clientes que fazem questão de contar a vida”, argumenta a manicure, que também é depiladora. Ela diz que acaba, de forma indireta, participando do nascimento ou morte de um relacionamento amoroso.

Em um sábado lotado, no intervalo de uma lixada nas unhas e um cafezinho, a discussão sobre a fidelidade toma conta em um canto do salão. “Se o meu faz, eu não sei. Acho que todos fazem. Mas o que eu vou fazer? Trocar seis por meia dúzia?”, fala a mulher com a mão suspensa, aguardando a unha secar após a pintura. As demais balançam a cabeça em sinal afirmativo, demonstrando uma resignação não muito convincente.

Para Carla Ferreira, de 27 anos, o motivo para tanta conversa é a carência. Ela trabalha há 10 anos em um instituto de beleza localizado em outro ponto da Cidade Baixa. A manicure, que também faz depilação, ilustra sua teoria com uma cliente que faz pé e mão três vezes por semana. As mulheres que costumam pintar as unhas sabem que uma semana ou 15 dias seria o suficiente. “Agora ela está diminuindo. Vem só na segunda e sexta-feira”. Carla acredita que a tal cliente, casada e mãe de dois filhos, não tem com quem dividir suas angústias ou alegrias, por isso, freqüenta tanto o local.

A também manicure, Sandra Pedroso, de 33 anos, diz que quanto maior a proximidade da tarefa, maior a intimidade da conversa. Entre uma escovada no cabelo e uma depilação há muita diferença. Mas sente que parece não haver, por parte do cliente, uma barreira entre o profissional e o “terapeuta”. “Para algumas, não somos profissionais pagas para executar uma tarefa específica, mas sim, para ouvir problemas. Tem um dia que eu não estou bem, como qualquer pessoa, mas elas não aceitam”. Além de tudo, existe o ciúme. Se uma cliente, que aguarda a sua vez de ser atendida, percebe que a “sua” manicure está conversando demais com a, digamos, rival, já reclama. “Elas chegam aqui e querem logo conversar”, diz Carla.

Reconhecido espaço de reabilitação para alguns ou local ideal para desabafos para outros, os salões de beleza fazem parte de um setor que movimenta cifras satisfatórias, inclusive, durante as crises econômicas. Saber o que movimenta isso, vaidade ou carência, vai precisar de mais uma discussão, talvez, em algum instituto por ai.

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O negro no futebol da vida

14/12/2009 at 15:52 (Por aí...) (, , , )

Já era fim de tarde, mas o sol ainda estava forte em um dos parques de Porto Alegre. No campo de areia, três garotos, que não deveriam ter mais de 10 anos, improvisavam uma partida de futebol.

Logo após a minha chegada, um menino, que aparentava ter quatro, cinco anos, pediu para entrar no time. Os três mosqueteiros se entreolharam e evitaram vacilar com um “não” em frente à mãe do menino negro que pedia a inclusão no grupo.

Nem tão discretamente, o trio se desfez, deixando o aparente líder do grupo sozinho diante do menino. Pênalti: o garoto negro e o, agora, xerife solitário, que se via sob a responsabilidade de aceitar o novato ou não. Optou por negar a participação, mesmo que isso lhe custasse driblar amigos imaginários.

O referido garoto excluído, mal se deu conta de que fora rejeitado. Acredito que não tenha compreendido o que aquilo significava, pois, tão logo saiu dali,  fora brincar em outro lugar, onde as crianças estavam tão distraídas que, arrisco a dizer, mal notaram a sua cor.

 Em seguida os desertados voltaram ao campo, e com eles, mais dois garotos brancos que foram aceitos no grupo sem restrições.

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 Não muito diferente é a situação do negro na sociedade. As pessoas evitam dizer um “não”, mas ele é muito mais presente do que imagina para aquele que tem a pele mais escura do que a maioria que o cerca.

Algumas pessoas insistem em dizer que as oportunidades são as mesmas para brancos e negros. Eu discordo: não são iguais. Existem brancos pobres? Sim, vários. Mas se você é negro e pobre, as chances de se dar bem são mais escassas. Certamente, você terá que trabalhar mais que o seu colega branco ou estar mais arrumado do que ele para que alguém perceba o seu empenho. Desculpa,mas é assim mesmo que funciona.

Pensei nisso, enquanto assistia o nosso amigo, inocentemente, querendo entrar naquele time tão exigente. São crianças, ok. Não sei até que ponto eles tiveram consciência do ato, mas é a partir desta fase que formamos nossa postura diante daqueles com quem iremos conviver na escola, no trabalho, no supermercado ou no condomínio.

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O menino excluído continuou a brincadeira em um grupo diferente, porém, mais heterogêneo. Ali, sequer havia um líder, quiçá, um cartão vermelho exibido por um juiz que não aceitava o jogador pela cor da pele.

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Marte para os marcianos

10/12/2009 at 18:09 (Por aí...) (, , , , )

Os legítimos Sem Terra…

Reivindicamos casa, comida, educação, terra, entre outras necessidades essenciais para que possamos viver com o mínimo de dignidade.

 Tsi, tsi… somos tão egoístas… Enquanto tem gente saindo às ruas reivindicando bronzeamento artificial (hein?), existem alguns que só gostariam de ter um planeta…

Crédito foto: Priscila Pasko

"Alô, alô, marciano..."

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Pílulas de livro para a alma

10/12/2009 at 17:02 (Por aí...) (, , , , )

Uma das diversas livrarias de Montevideo

É impossível não notar a quantidade de livrarias e bancas de revistas aqui no Uruguai. A cada quadra, você se depara com uma porção delas. Antigas, novas ou estilosas, elas realmente são frequentadas, não servem apenas de cenário para que um bairro ou rua seja considerado cult.

Nos bares e cafés é comum ver as pessoas mergulhadas na leitura de livros, jornais e revistas. Consomem uma água, um café ou um outro lanche qualquer. E permanecem ali por um longo tempo, até que terminem algum capítulo interessante de uma história ainda sem fim. O atendente não vai ficar no seu pé se você não consumir mais nada. A leitura é bem-vinda.

Creio que o Uruguai possui tantas livrarias, quanto nós brasileiros temos farmácias. Aqui, para encontrar uma você tem que caminhar….e muito. Talvez aí esteja a resposta para a nossa hipocondria exacerbada: o corpo adoecido pela falta de leitura.

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Mapas

08/12/2009 at 19:43 (Por aí...) (, , , )

“Calle Rio Branco… Canelones… Durazno…”. O momento é propício. Nunca imaginei que quatro anos de consciência determinada do meu futuro se transformariam em um vácuo existencial, intelectual, mental e todas as outras variações que possam surgir. Sempre soube o que estaria fazendo com pelo menos um ano de antecedência. Tudo muito planejado. “Vou sair deste estágio até o final do mês”. “Vou morar sozinha até o fim do ano”. “Irei comprar um computador, assim que der”. Exemplo de profissional, digna de menção honrosa pela forma metódica com que planejo o futuro.

“Calle Maldonado… Carlos Gardel…”. Tudo isso, até que o destino lhe prega uma peça e retira o chip organizacional que você tinha instalado na nuca: “Não sei o que fazer da minha vida!”. Um dia, ouvi alguém dizer que as pessoas mais interessantes não sabiam o que fazer da vida durante boa parte da existência delas. Realmente, precisam ser muito especiais, porque não estou sabendo lidar com isso.

“Calle Paraguay… Rio Negro… Colonia…”. São 13h09 de uma terça-feira ensolarada, aqui em Montevideo. Caminho sozinha pelas ruas de uma cidade que não conheço. Leio o mapa amassado em minha mão, que pouco significa. Nomes de ruas que não conheço. Escolho qualquer direção, não fará diferença.

“Calle Ejido… Carlos Gardel… Quijano…”. Estar sem rumo na vida e caminhar sem destino certo por aí, traduz a personificação do meu estado de espírito. É bom, mas não sei explicar a razão.

“Calle Yaguaran… Rondeau…”. Como você desconhece as ruas, avenidas e casas antigas, não existe compromisso de se ter planos. Não tenho intimidade com nada, nem com ninguém. Não preciso dizer que não sei o que fazer da vida, não preciso me sentir mal com isso. Não há cobranças.

“Calle Cebollati… La cumparsita…”. É bom caminhar entre os desconhecidos do lado de fora. Não sei lidar com os daqui de dentro, de mim. Por enquanto, aproveito a única semelhança com as ruas e eu: a cumplicidade de ser e estar perdido em algum lugar, à espera de um turista que nos encontre em alguma direção.

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“As Mariposa” para a sexta-feira

27/11/2009 at 13:40 (Música) (, , )

Inspirada na dica do Simulações, no twitter, desejo uma ótima sexta-feira a todos, com a trilha sonora de Demônios da Garoa!

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Dance o frevo nos dias de chuva

24/11/2009 at 09:15 (Por aí...) (, , , , , , )

Foto: Olhares.com - Fotografia Online

Amigo, você dança frevo e não sabia. Duvida? Eu comprovo, não tem problema. Certamente você já deve ter andado pelo centro da sua cidade em dias de chuva, certo? O que você me diz da coreografia das sombrinhas e guarda-chuvas pelas ruas estreitas e, geralmente, imundas deste pedaço da cidade?

Você caminha por uma rua – qualquer rua, de qualquer centro. Em dias de chuva, todas se tornam caóticas.  A sombrinha não para muito tempo na posição oficial, no caso, em cima de você:

“Ih… Lá vem o guarda-chuva do Chaplin e ele é maior que a sua sombrinha floreada! Se abaixe! Ufa, foi por pouco. Nossa, logo adiante, vem a da Barbie! Sombrinha para o lado, rápido! Ai, Madonna vem com tudo nas mãos de uma senhora de meia idade (que me faz duvidar que ela saiba quem é a pessoa estampada na sombrinha), levantaaaa!.

E neste jogo de equilíbrio, destreza e, por que não, ritmo, dançamos o frevo. Sombrinha para a direita! Para a esquerda! Para cima! Para baixo! Como forma de tornar a coisa mais divertida, sugiro que você flexione os joelhos, sim! Jogue o corpo para o lado! Olha o ritmo, que lindo!

Sei que você não tem tempo para pensar ou observar isso. Mal consegue agarrar a sua bolsa para que nenhum espertinho a roube, não é? Mas perceba que até as pessoa que não têm ritmo algum conseguem entrar na dança e se encaixam na harmonia.

Ao invés de ficar bravo em dias de chuva, tente enxergar o lado divertido da situação. Comece por comprar sombrinhas coloridas, com desenhos e estampas alegres. Deixe as ruas floreadas. Além de fazer com que o dia chuvoso seja mais poético, facilita na hora de identificar qual é a sua entre tantas outras que dançam o frevo por aí… 

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Bom começo de semana com Maria de Verdade

23/11/2009 at 09:20 (Música) (, , )

Para iniciar bem a semana… Boa segunda-feira a todos!

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Metamorfoses da vida

21/11/2009 at 12:19 (Por aí...) (, , , , , )

As escolhas que fazemos não são simples decisões, mas reflexões daquilo que pensamos e do modo como agimos. Foi baseada neste pensamento que escolhi a música da minha formatura. Por isso, acreditei que “Metamorfose Ambulante”, do grande Raul Seixas, falaria muito de mim e da minha trajetória nos últimos anos.

Minha vida sofreu mudanças constantes e significativas. Ingressei na Pucrs no curso de Relações Públicas e troquei para o Jornalismo. Nos primeiros semestres, pensei que passaria toda a minha trajetória profissional no estúdio de uma rádio; hoje pretendo me arriscar pelos veículos impressos, principalmente revistas. Cadeiras de online na Pucrs? Redes sociais? “Hã!”; hoje participo do Orkut, Facebook, Delicious, Linkedin, Twitter – fora outras redes sociais, como O livreiro, além deste blog.

Parafraseando Raul, eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Mudar é preciso. É sinal de maturidade, sinal de que você sabe que nem tudo pode ser como sempre foi. As pessoas mudam, a economia se molda, o regime político se adapta, os comportamentos se alteram, a tecnologia é substituída freneticamente. Por que você não pode mudar, cara pálida? A vida é muito mais complexa do que uma sentença pretensiosa.

Agindo desta forma, tive muitos ganhos. As perdas? Conceitos ultrapassados, preconceitos e uma ingenuidade pouco colaborativa com a realidade que me cerca. E já aviso que não tenho vergonha disso. “Pois é, Priscila, não era você que não gostava de plantar bananeira?”. “Sim, Fulano, era eu mesma. Mas descobri que isso pode ser bom para colocar as ideias no lugar. Agora, planto bananeira todos os dias, pela manhã.”

Coisa mais chata é conversar com alguém que já tem aquele texto pronto, sabe? Parece que passa horas decorando o roteiro para depois despejar na roda de amigos. Não digo que a criatura não deva ter opinião, afinal, precisamos nos posicionar em muitas situações. Mas falo em ser flexível e aberto às ideias, pessoas e teorias.

Tenho certeza de que quando eu levantar para pegar o meu canudo e Raulzito cantar que “é chato chegar a um objetivo num instante”, um filme passará na minha cabeça. E de que valeu muito a pena fazer algumas mudanças, do curso de jornalismo à plantar bananeira.

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No mundo da lua…

20/11/2009 at 16:13 (Sobre Jornalismo) (, , , )

Matéria feita para a cadeira de Projeto Experimental, da Pucrs 2009/2.

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O início da peregrinação pelos salões de beleza e escolas de cabeleireiros deixava claro que um dos enfoques da reportagem logo tomaria outro rumo. A esperança de encontrar mulheres crentes no poder da lua sobre as madeixas desfez-se a cada vez que uma tesoura em punho funcionava freneticamente em plena lua minguante.

O arco formado com a boca e as sobrancelhas arqueadas dos profissionais revelavam o desdém da teoria considerada ultrapassada. Só os mais velhos interessavam-se em cortar os cabelos na lua adequada ao seu objetivo. Se o desejo fosse domar o volume do cabelo, lua nova. Para que o cabelo conseguisse passar da altura do ombro, lua crescente. Se a intenção fosse dar mais volume, lua cheia. E para os que se contentassem em gastar um único shampoo no mês, lua minguante.

Além de suscitar a paixão, influenciar nos nascimentos e no mapa astral, a lua, também, colaborou com o aumento do orçamento dos cabeleireiros. O ápice foi entre os anos 1980 e 1990, quando o sistema Pilomax coordenava o agendamento dos salões de beleza. Somente o ano de 1969, com a chegada do homem à lua, foi mais importante do que as décadas de ouro do satélite. Hoje, o sistema ainda existe e pode ser adquirido por R$ 40,00. O marketing é menor, mas sobrevive nas cabeças mais tradicionais.

Baseado na lua, horário e na data de nascimento da pessoa, um calendário personalizado era criado. Nele, estava traçado o caminho anual da fase lunar, do dia e, inclusive, a hora em que o cliente deveria cortar o cabelo. O problema eram os finais de semana e feriados. Os cabeleireiros mais afoitos quebravam o protocolo do dia do descanso e se destinavam aos honorários inflacionados pela excepcionalidade do dever. Os usuários mais prevenidos do sistema Pilomax garantiam, em um agendamento prévio e anual, os clientes.

Na rua que abriga as tantas lojas destinadas a produtos de beleza e as escolas com formação na área estética, as mulheres mostram-se descrentes.

Durante uma interferência na aula de design de sobrancelhas, das 11 mulheres presentes, apenas duas aparavam as madeixas conforme a lua. “Meu cabelo não é couve!”, rejeitou uma delas “Nada a ver”. As pessoas não falavam mais nisso, logo, a teoria não existia. Durante uma interferência na aula de design de sobrancelhas, das 11 mulheres presentes, apenas duas aparavam as madeixas conforme a lua. “Meu cabelo não é couve!”, rejeitou uma delas, “nada a ver”. As pessoas não falavam mais nisso, logo, a teoria não mais existia. A opinião é compartilhada com o coordenador da Academia Coprobel, Fernando Luiz Guimarães. Para ele, a saúde do cabelo até pode receber influência da lua, mas como a mídia não divulga o assunto as pessoas acabam não acreditando.

Agora, quando o assunto foi depilação, praticamente todas as alunas foram contraditórias e concordaram. A professora, antes contrariada em ter a aula interrompida por uma pesquisa empírico-acadêmica, alcança um folheto intitulado Curiosidades, onde é explicada a influência da lua na depilação.

O conteúdo discorre sobre pelos encravados, velocidade do crescimento e a força da raiz. Mas a metodologia é mais complexa, pois, além da lua, há a influência dos signos. As aquarianas, geminianas e librianas, por exemplo, devem recorrer à depilação nos dias de lua nova. No entanto, como o próprio material informa, a dita fase não faz com que os pelos diminuam, ocorrendo, inclusive, encravamento dos mesmos. A minguante é a indicada para as cancerianas, escorpianas e piscianas, que terão o crescimento dos pelos inibidos e com força raiz. Virginianas, capricornianas e taurinas, menos privilegiadas, terão mais gastos com a depilação, pois a lua indicada para a depilação, a crescente, faz com que o crescimento dos pelos seja mais rápido. Mais sortudas, as leoninas, sagitarianas e arianas gastarão menos cera depilatória, já que na lua cheia os pelos tendem a diminuir e o encravamento é quase nulo.

Como se não bastassem os pelos, o lado emocional também é provocado pelas mudanças de fase da lua. As mulheres são mais suscetíveis, afinal, assim como o ciclo do satélite, o período menstrual também possui 28 dias. Então, a culpa, antes concentrada na TPM, poderá ser dividida com a lua cheia, época em que as mulheres ficam mais expansivas e, por vezes, agressivas. Especula-se, inclusive, que crimes e acidentes de trânsitos tenham mais incidência na dita fase.

A ação da lua ultrapassa questões como pelos, cabelos ou humor. Ela pode até mesmo garantir o sucesso ou o fracasso de eventos e manifestações políticas. Para que um show musical tenha chances de atrair multidões, deverá ocorrer na lua cheia, basta que os produtores estejam atentos ao calendário lunar. Mas caso alguma reivindicação ocorrer nesta fase, a probabilidade de tumultos será bem maior. Ao contrário da lua nova, que seria indicada para eventos mais reservados, porém, que demandariam um público discreto e qualificado.

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